quinta-feira, 28 de março de 2019

O pequeno ponto azul (publicado a 19/12 no Repórter Sombra)


Com grande pena minha, não consegui encontrar a data de emissão original de Cosmos na RTP. Sei que foi emitida pela PBS nos Estados Unidos da América entre Setembro e Dezembro de 1980, portanto desconto um pouco para Portugal. Deveria ter 7 ou ou 8 anos em 1981/82.
Foi ao ver Cosmos, e descobrir Carl Sagan, que fiquei fascinada, real e absolutamente fascinada pela ciência, e que passei a estar mais interessada em astronomia do que em ser astronauta... Afinal há um universo inteiro por explorar, uma história do homo sapiens por descobrir, sequências de pares de bases no DNA por descobrir.
Descobri que saber mais é viciante e intrigante. Cosmos brindou-nos com imagens e efeitos especiais topo de gama para os anos oitenta (e envelheceu suavemente e brilhantemente como um bom Porto). Carl Sagan inspira-nos a saber e a procurar.
Não é o meu herói, porque penso nesse “título” como algo um pouco redutor. É sim uma das pessoas que mais admiro, não só pela capacidade de explicar temas complicados a uma plateia televisiva, mas por todo o seu percurso de vida.

Carl Edward Sagan nasceu a 9 de Dezembro de 1934, em Brooklyn, Nova Iorque, filho mais novo de Samuel (emigrante russo) e Rachel, irmão de Carol. O pai trabalhava na indústria de vestuário, a mãe era dona de casa. Embora com poucos meios, sempre estimularam a curiosidade inata de Carl e o seu gosto por aprender.
 Nas suas memórias de infância, que descreve nalguns dos seus livros, Sagan relembra a visita à Feira Mundial de 1939 (em Nova Iorque), com a exibição America of Tomorrow ( espelho do futuro, mostrando os primórdios da televisão, por exemplo). Destaca também as visitas ao Museu Americano de História Natural e ao Hayden Planetarium (em Manhattan).
Nos tempos livres ia para a biblioteca publica ler livros sobre as estrelas, ou instalar sets de química dados pelos pais (acabou por ter um laboratório em casa). Descobriu também a ficção científica, através de H.G.Wells ou Edgar Rice Burroughs. A cereja no topo do bolo seria a revista Astounding Science Fiction.
Estavam reunidas as condições para formar um cientista. Sendo um aluno brilhante no liceu, Sagan interrogava-se se a Astronomia podia ser uma profissão de futuro ou apenas um passatempo. Com a Space Race prestes a começar, acreditou que sim.
 No fim do liceu escreveu um ensaio onde questionava se o contacto humano com formas de vida avançadas de outros planetas poderia ser tão desastroso para os terrestres como tinha sido para os Nativos Americanos o primeiro contacto com os Europeus; apesar do assunto controverso, a sua capacidade retórica valeu-lhe o primeiro prémio.
Estudou Física na Universidade de Chicago, onde se licenciou, concluiu o mestrado e o doutoramento. Trabalhou com o geneticista H. J. Muller (Nobel da Medicina em 1946, pela descrição dos efeitos das radiações em mutações genéticas) e com o bioquímico Harold Urey (Nobel da Química, 1934, pela descoberta do deutério), tendo colaborado no seu trabalho pioneiro  sobre a origem da vida (“sopa primordial”).
A sua tese de doutoramento, Physical Studies of Planets, foi submetida ao Departamento de Astronomia e Astrofísica, em 1960, e teve como orientador Gerard Kuiper (considerado o pai da ciência planetária moderna).
Para além de uma extraordinária capacidade de aprendizagem, Sagan teve a sorte de privar com os cientistas mais conceituados do início da segunda parte do século XX, assim como na criação da NASA desde o seu início. Tal como Newton, vê mais longe, subindo aos ombros de gigantes.
Entre 1960 e 62 foi bolseiro na Universidade de Berkeley, Califórnia. Até 1968 foi Professor Assistente na Universidade de Harvard e no Observatório Smithsonian, em Massachusetts. Finalmente, e até à sua morte, foi Professor e Director do Laboratório de Estudos Planetários na Universidade de Cornell em Nova Iorque.
Em 1961 publicou um artigo na revista Science, sobre a atmosfera de Vénus, sugerindo que esta seria seca e muito quente devido a um forte efeito de estufa (contrariamente ao pensado na altura). Colaborou com o Jet Propulsion Lab nas primeiras missões Mariner a Vénus, que confirmaram as suas conclusões.
Foi conselheiro da NASA também nas missões Apollo e na construção e desenvolvimento de várias sondas robóticas enviadas na exploração do Sistema Solar. As sondas Pioneer 10 e 11 (1972/73)  transportam placas de alumínio anodizado com informações acerca da origem das naves.
As sondas Voyager 1 e 2 (1977) transportam também um disco áudio-visual banhado a ouro, com fotografias da Terra, suas formas de vida, informações científicas, saudações em 55 línguas, “sons da Terra” que incluem sons de baleias, um bebe a chorar, ondas a baterem na costa e uma colecção de música, incluindo Bach, Mozart, Chuck Berry e músicas indígenas de todo o globo.
A missão primária das Voyager foi o estudo de Júpiter e Saturno, caminhando depois para o espaço exterior. Quando a Voyager 1 passou por Saturno em 1980, Sagan propôs que a sonda tirasse uma ultima fotografia da Terra, sabendo que não teria grande valor cientifico, uma vez que a Terra estaria demasiado longe para as câmaras da Voyager captarem algum detalhe, mas seria muito significativa como maneira de por em perspectiva o nosso lugar no universo.
Em 14 de Fevereiro de 1990, antes de desligar permanentemente as câmaras fotográficas, a 6 biliões de quilómetros da Terra, a Voyager tirou a colecção “Family Portrait” do Sistema Solar, entre as quais o célebre Pale Blue Dot.

Poderia continuar a falar de feitos científicos por vários artigos mais. Carl Sagan era também um cientista com vários objectivos: a partir da descoberta do efeito de estufa em Vénus, voltou-se para o mesmo efeito na Terra, e para os efeitos do aquecimento global; foi contra a escalada nuclear entre os EUA e a então URSS, tendo cunhado a expressão “inverno nuclear”; foi pioneiro na pesquisa de vida inteligente fora da Terra, tendo fundado o SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), que colocou activamente radio-telescópios a “ouvir” o universo (e as mensagens que ele possa enviar).
Mas tudo isto não passa de um resumo. Carl Sagan escreveu vários livros, “devolveu” a ciência
aos leitores ávidos, foi um eterno optimista, curioso e céptico, três características fundamentais para estudar, experimentar, descobrir e repetir de novo.
     Estamos numa altura em que a ciência é negada diariamente, não porque seja difícil, mas porque é inconveniente. Porque não dá as respostas que se quer. Porque não cabe nas pesquisas do Google. Porque não é um sistema de crenças, mas um sistema de conhecimento que se vai aperfeiçoando. De alguma maneira, a ciência para uma grande plateia tornou-se algo escasso. Os dados tornaram-se herméticos e a população demasiado convencida que a lei da internet é mais forte.
       Precisamos de divulgação e de alguém que nos relembra, de novo, o nosso lugar no Universo. God Speed, Carl.


Contributos para Carl Sagan versão 2.0:



Nós conseguimos tirar essa fotografia (a partir do espaço profundo), e se olharem para ela, verão um ponto. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele viveram as suas vidas todas as pessoas de que já ouviram falar, todos os humanos que alguma vez viveram. A soma de todas as nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões confiantes, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e presas, todos os heróis e cobardes, todos os criadores e destruidores de civilizações, todos os reis e camponeses, todos os jovens casais apaixonados, todas as crianças esperançosas, todas as mães e pais, todos os inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as super estrelas, todos os líderes supremos, todos os santos e pecadores da história da nossa espécie, viveram lá, num punhado de poeira, suspenso de um raio de sol.

A terra é um palco muito pequeno numa arena cósmica vasta. Pensem nos rios de sangue jorrados por todos os generais e imperadores, para que em triunfo e glória se pudessem tornar os donos momentâneos de uma fracção de um ponto. Pensem nas crueldades intermináveis infligidas por habitantes de um canto do ponto, a habitantes, praticamente indistinguíveis, de outro canto do ponto. Quão frequentes são os seus desentendimentos, quão desejosos estão de se matar uns aos outros, quão fervorosos os seus ódios. Os nossos maneirismos, a nossa auto-importância imaginária, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no universo, são desafiados por este ponto de pálida luz.
O nosso planeta é um solitário ponto na grande escuridão do cosmos envolvente. Na nossa obscuridade – em toda a sua vastidão – não há nenhuma pista de que possa vir ajuda de algum outro lado para nos salvar de nós próprios. Só depende de nós. Costuma dizer-se que a astronomia é uma experiência de humildade, e, posso acrescentar, que é formadora de carácter. Na minha mente, não haverá talvez melhor demonstração da loucura dos conceitos humanos que esta imagem distante do nosso pequeno mundo. Para mim, sublinha a nossa responsabilidade de lidar com mais gentileza e compaixão uns com os outros para preservar e prezar esse pequeno ponto azul, a única casa que alguma vez conhecemos.”  
Carl Sagan, discurso na Universidade de Cornell, 13 de Outubro de 1994

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Des / Ocupar (publicado em Repórter Sombra a 5/12)



sobre capitalismo, desigualdade social e algumas utopias



Capitalismo é uma palavra feia, mesmo que faça o mundo rodar. É um grande ismo cheio de si, que parece atrair cifrões e outros ismos papões de sentido contrário, como Socialismo e Comunismo.
No fundo, é a economia de mercado que governa o mundo, desde que os meios e a necessidade de produção em grande escala se tornaram rotina, com o advento da Revolução Industrial, embora já tivesse sido ensaiado , em menor escala, a partir do Renascimento, nas trocas comerciais entre Europa e Ásia, que prosperaram no período de expansão ultramarina.
Não sendo eu, tal como Fernando Pessoa, especialista em Finanças, mas apenas uma parte interessada, relembro a definição clássica de Capitalismo: um sistema económico e social baseado na propriedade privada dos meios de produção (e distribuição), cujo objectivo é atingir lucro e acumulação de riqueza, através do trabalho da classe trabalhadora ou assalariada.
Os proprietários dos meios de produção tomam decisões em benefício próprio e fazem investimentos nos mercados financeiros, e o preço e distribuição dos bens são determinados pela concorrência e pela lei da oferta e procura.
Os trabalhadores assalariados “vendem” horas do seu trabalho de modo a obterem também uma pequena fatia de capital que vai teoricamente retro-alimentar o mercado de consumo.
Não é difícil percebermos vários problemas associados a este tipo de organização do mercado: a ligação a um lucro (e acumulação) exponenciais, a limitação do salário ou do emprego para obter esse mesmo lucro, as actividades paralelas nas praças financeiras criando sistemas de concorrência desleais, cartéis ou monopólios, o esgotamento das matérias primas e energia, a desigualdade económica e social cada vez mais acentuada entre quem trabalha e quem manda trabalhar, e entre países mais  e menos “desenvolvidos”.
As teorias capitalistas de mercados livres não regulados surgiram após a Revolução Francesa, a  independência dos Estados Unidos da América, e concomitantemente à Revolução Industrial. Os  economistas e filósofos como Adam Smith e Jean-Jacques Rousseau consideravam estes sistemas mais livres e democráticos. Uma utopia.
Assim como utópico foi sempre o conceito de igualdade. Herdámos sistemas sociais presentes em muitos grupos de primatas, onde se observa uma hierarquia de dominância, que determina quem tem direito a comer primeiro ou a acasalar e produzir descendência.
Nos tempos dos caçadores-recolectores não poderia haver muita discriminação, mas assim que passámos a produzir, modificar e vender, a produzir excedentes e a aprender a escrever, ao mesmo tempo que a população crescia (ainda a ritmo lento), a clássica tríade social começou a tomar forma (clero, nobreza e povo).
Com o mercantilismo de Quinhentos e a Indústria de Oitocentos, o clero e a nobreza foram-se tornando cada vez mais irrelevantes e a burguesia, desde sempre ligada ao comércio começou a longa escalada até ao 1% mais alto.
Tenho para mim que a desigualdade existiria em qualquer sistema económico e político. As experiências com a União Soviética e a China, mostraram que a almejada distribuição equalitária dos lucros pelos proletários nunca segue o melhor caminho, e o controlo total dos meios de produção pelo estado (agindo em nome do proletariado) também é de uma grande ingenuidade totalitária.
O sistema capitalista também é acusado de agitar a democracia, não só pelas relações de realpolitik com países e organizações suspeitas, por mais um punhado de dólares, como pelos fortes lobbies que tentam condicionar as forças políticas (como certos donos disto tudo).
Não é também um sistema isento de fragilidades e de falhas, com várias crises no século XIX (que precisamente levaram Karl Marx a teorizar que o caminho do capitalismo seria sempre o desastre), a grande depressão dos anos 30, a crise do petróleo nos anos 70, ou por exemplo um ainda recente crash da bolsa, decorrente da crise do sub-prime em 2007-2008.
A economia mundial da aldeia global ressente-se, os governos tentam salvar as grandes instituições financeiras, o desemprego aumenta com sucessivas falências e os contribuintes (principal fatia da liquidez para o mercado e para os impostos) são cilindrados no seu poder de compra (e no fundo, qualidade de vida).
A igualdade como direito e não utopia só cresceu como verdadeira força social motivadora com a conquista do direito de voto pelas mulheres e a luta pelos direitos civis (igualdade entre raças).
Os governos (e os grandes grupos acumuladores de capital) tiveram de começar a ter em conta que não basta pagar ao “proletariado” (agora divido por tantas actividades), mas também proporcionar níveis de saneamento básico e habitação, educação, saúde e justiça.
Mesmo assim, apesar de assumido como a “norma”, o Capitalismo, para ser tendencialmente mais equalitário e menos atreito a crises periódicas, necessita de regulação, pelos seus pares, e pelos governos, nacionais, e talvez por mais entidades externas independentes.
 Não podem ser ultrapassados limites em que a ganância joga com o capital que possui e com  que ainda está por imaginar. Nem que sejam permitidos lobbies que controlem todas as forças políticas de tal modo que a democracia seja formatada segundo interesses que não os da maioria.
Como fazer isto? Escrevo este texto em plena black friday. E como disse, não sou perita em economia. O poder dos consumidores não se resume a ocupar Wall Street. Temos que começar a comprometermo-nos com aquilo que compramos. Para já, se conseguíssemos acabar com estas épocas de consumismo forçado, seria uma marca de distinção.
Pensar fora da caixa, fazer compras  conscientes a nível local e menos nas grandes superfícies, em estabelecimentos com ligação ao comércio justo (com ligações à sustentabilidade, direitos humanos, ecologia e pequenas comunidades). Reciclar. Pensar nos custos ecológicos. Trazer a ética ao nosso consumo, para que ela passe a ser necessária até para o 1% de topo.



Para pensar: Comércio Justo



segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Sade - Is It A Crime (Official Video)



 This may come, this may come as some surprise
But I miss you
I could see through all of your lies
And still I miss you
He takes her love, but it doesn't feel like mine
He tastes her kiss, her kisses are not wine, they're not mine
He takes, but surely she can't give what I'm feeling now
She takes, but surely she doesn't know how
Is it a crime
Is it a crime
That I still want you
And I want you to want me too
My love is wider, wider than Victoria Lake
My love is taller, taller than the Empire State
It dives and it jumps and it ripples like the deepest ocean
I can't give you more than that, surely you want me back
Is it a crime
Is it a crime
I still want you
And I want you to want me too
My love is wider than Victoria Lake
Taller than the Empire State
It dives and it jumps
I can't give you more than that, surely you want me back
Is it a crime
Is it a crime
That I still want you
And I want you to want me too
It dives and it jumps and it ripples like the deepest ocean
I can't give you more than that, surely you want it back
Tell me, is it a crime
Compositores: Andrew Hale / Helen Adu / Helen Folasade Adu / Stuart Matthewman

sábado, 24 de novembro de 2018

First Man (publicado a 21/11 em Repórter Sombra)



Depois de ter visto O Primeiro Homem na Lua, e de ter gostado bastante, senti muita dificuldade em escrever sobre o filme, apesar de ter lido vários artigos sobre o livro (biografia autorizada) com o mesmo nome, escrito por James R. Hansen em 2005 (adaptado por Josh Singer, argumentista de Spotlight e The Post), e ter visto um excepcional documentário produzido pela BBC em 2012, Neil Armstrong: First Man on the Moon.
Li também várias críticas portuguesas, inglesas e americanas, e fiquei a saber alguma coisa sobre o making of, quase tudo, diga-se, em abono do filme.
Sobre o homem, primeiro astronauta na Lua (a ordem e a escolha não foram arbitrárias, obviamente), que conhecia por não gostar de falhar e experimentar sempre até conseguir, fiquei a saber que nasceu em Cincinnati, Ohio (cidade Natal de um certo produtor executivo chamado Steven Spielberg), no Midwest. Teve brevet de aviador antes de ter carta de condução. A família mudou-se muitas vezes e acabou por viver perto da cidade natal dos irmãos Wright, que eram os seu ídolos. Alistou-se na Marinha para conseguir uma bolsa para a faculdade. Acabou por ser piloto na guerra da Coreia, e quando foi desmobilizado, completou o curso de Engenharia Aeroespacial. Foi piloto de testes e entrou no programa espacial no segundo grupo, “The New Nine” (depois dos “Mercury Seven”).
Pausa para narrativa do filme.
Depois da missão Apolo 11, saiu da NASA e durante largos anos foi professor na faculdade onde se formou e vivia numa quinta no campo. Foi sempre avesso a exposição mediática, um homem reservado e que escolhia bem as palavras que usava.  Algumas pessoas catalogam-no como recluso.
Sobre o filme, que esperar de Damien Chazelle que nos brindou com Whiplash/Nos Limites (2014) e La La Land /A melodia do Amor (2016, com direito a Óscar para realizador)? Gostei dos dois filmes, de maneira muito diferente. São sem dúvida filmes sobre obsessões e sacrifícios, tal como First Man.
First Man é sobre superação e sublimação, ou como face a um imenso conjunto de adversidades, se segue em frente. E é um filme não sobre os anos 60 mas sobre 2018. Essa é a parte que falha.
Neil Armstrong (Ryan Gosling) é um homem reservado, mergulhado no trabalho para esquecer (ou mastigar) a dor da perda da filha de 2 anos com um tumor cerebral. Tem uma família, a esposa Janet (Clare Foy) e dois filhos, alguns amigos (os astronautas Elliot See e Ed White), que morrem em acidentes violentos e partilha cervejas e barbecues com os colegas.
Gosling capta bem a essência da introspecção. Não se contorce com dúvidas, embora não queira partilhar algumas dores com ninguém. A sua cara não é inexpressiva, embora não seja sorridente. Sente-se alguma pressão, tensão e muito controlo.
 As personagens “caladas” não são fáceis - facilmente uma característica de personalidade pode ficar reduzida ao seu cliché, coisa que li vezes sem fim. O carácter estoico, a frieza, a contenção das emoções não são “uma ideia tradicional de masculinidade americana” (leia-se nas entrelinhas, branca). São pura e simplesmente traços da natureza de um homem simples do Midwest que conseguiu muito mais do que aquilo que sonhou, e que talvez só peça um bocadinho de paz.
É interessante como as cenas passadas na Terra, perto de casa, estão cheias de barulho da natureza, da chuva ao canto dos pássaros. Por contraste, os big booms estão cheios de barulho de máquinas (os foguetões, os foguetes, a estrutura a abanar-como-que-a-desfazer-se).
E é durante os big booms que nos fixamos intensamente na cara, nos olhos de Armstrong, no espaço exíguo de um cockpit ou de cápsulas e o vemos também a ele ser agitado, forçado no assento com ou sem gravidade, em todas as direcções, como se estivéssemos ao lado dele.
Estamos com Armstrong no jacto que salta a atmosfera, na cena que abre o filme (piscar de olho a Os Eleitos), estamos com Armstrong, na Gemini 8, enquanto dança a valsa (piscar de olho a 2001 Odisseia no Espaço) e enquanto gira em velocidade sobre humana; estamos com Armstrong quando o Saturn V o empurra para a Lua e ainda estamos com ele na alunagem. Estamos com ele do outro lado do visor dourado que reflecte a superfície da Lua. Estamos com ele quando se despede da filha.
E agora 2018, para o melhor e o pior. Sendo filho da sua época é um filme intensamente nostálgico, não só em relação à personagem, mas sim à era. Nós já fomos ingénuos, simples, já conseguimos tanto só com uma pinguinha de hardware e software. Nós já tivemos vontade de ir à Lua, nós já tivemos vontade de nos vestir de cowboy ou de andar de baloiço. Agora é tudo complicado.
Daí resultam coisas inesperadas, como a música. Armstrong gostava de Lunar Rhapsody, onde entrava um instrumento que é melhor googlar, o teremim. Justin Hurwitz, o colaborador mais regular de Chazelle, também o utilizou, criando músicas que parecem de outro mundo (ou seja de filmes de outros mundos dos anos 50).
Outro tópico 2018 – a dúvida. Terá valido a pena ir à Lua? Gastar dinheiro que poderia salvar gente da pobreza, doença, fome e pestilência? Como dúvida, é irritante. Cada vez que investirmos num ramo do conhecimento humano, estaremos a desinvestir noutra coisa. Ainda outro tópico 2018 – um filme sobre um branco, realizado e produzido por brancos. Insere-se Gil Scott-Heron perto do Cabo Canaveral, cantando que só os brancos vão à Lua...
As insistências 2018, por mais verdade que contenham em si, são vazias. A história foi feita e nunca é perfeita. Não se ganha nada senão a indignação de todas as partes.
O que me leva ao pináculo 2018: a ausência da bandeira americana na Lua, que fez saltar e ufar senadores republicanos e o próprio Aldrin. Bem, a bandeira está lá, não faz parte da acção central, e é de uma completa mesquinhez arranjar teorias da conspiração com isso. Contudo o mal está feito. Muito 2018.

Resumindo: é um filme tremendamente imersivo, que nos põe facilmente na pele de Armstrong em todas os cenários fora da Terra. Sentimos a sua dor e o seu empenho e quem, como ele, tiver uma costela introspectiva, percebe as  suas reacções. Não deixa de ser estranho contudo, que até num dos principais posters, seja a Lua a fazer as vezes de vidro do capacete de Armstrong, como se ele estivesse permanentemente separado de todos nós, hermeticamente selado pelos selenitas.

Pipocas extra:


Então queres ser um escritor? (Charles Bukowski)



se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.
se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
não há outra alternativa.
e nunca houve.
Tradução: Manuel A. Domingos

domingo, 11 de novembro de 2018

Se nós não deixarmos, um luto nunca começa


Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

W H Auden /Funeral Blues

Não parem os relógios nem desliguem os telefones. Não façam silêncio.Não há funeral, não se canta o blues. As carpideiras não são bem vindas. 
Parece-me demais escrever no céu alguma coisa. Pensei uma vez mesmo a sério que pudessem existir todos os meus pontos cardeais numa pessoa. A minha semana de trabalho e o meu descanso de domingo. A minha tarde, minha meia noite, minha voz, minha canção. Mas quando se erra insiste-se no erro. Não era amor e não ia durar para sempre.
As estrelas são precisas sempre, não empacotem a Lua nem destruam o Sol, deixem correr o oceano e a floresta e a vida; alguma coisa boa sairá de deixar partir quem nunca quis ficar. 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A memória é um lugar estranho

Publicada em Repórter Sombra a 5/11/2018




A Memória é um lugar estranho

Eu lembro-me”, “eu faço” e “eu sou” não são afirmações tão independentes como se possa pensar numa primeira leitura. Se o nosso cérebro não conseguir integrar as nossas lembranças com a nossa própria pessoa, com os estímulos sensoriais que constantemente recebemos do exterior, com a nossa capacidade motora e com a nossa vida de relação, muitas das suas funções superiores ficam comprometidas.
Sendo a memória um sistema de processamento extremamente eficaz e sensível que codifica a nova informação, a armazena e a recupera (quando necessário), podemos dizer que se torna indispensável para a criação do nosso “eu” (gerando, por exemplo, uma narrativa interna temporal e cronológica autobiográfica) e para fornecer orientação no espaço, tempo, em relação a nós próprios e a terceiros.
Em que é que isto se traduz, na prática? Desde que nascemos, estamos sempre a aprender, com a novidade e a repetição. Estamos expostos a uma variedade quase ilimitada de estímulos externos, e à medida que as conexões neuronais se vão desenvolvendo e tornando mais complexas durante a infância, vamos adquirindo a noção de constância do eu, da separação entre eu e os outros, de inúmeras funções motoras, sendo porventura a mais complexa a linguagem.
A memória codifica tudo. O que significa codificar? Transformar estímulos físicos e químicos externos (ao cérebro) em novos padrões de conexões neuronais, quer isoladamente (codificação individual de estímulos auditivos, visuais, tácteis, ou integrada: informação espacial, geográfica, verbal, cronológica).
O processamento e o armazenamento implicam a existência de “filtros” que permitam a separação entre estímulos supérfluos e necessários, a informação que necessitamos para o dia a dia e a informação a armazenar de forma permanente.
No primeiro caso entram em jogo o foco, a atenção e a repetição, para construir memórias de curto prazo (memória processual ou de trabalho, com armazenamento limitado e duração de minutos) codificando sobretudo informações e actividades automáticas do quotidiano.
No segundo caso, a consolidação e reconsolidação da informação está ligada ao hipocampo, amígdala, corpos estriados e mamilares, estruturas cerebrais em estreita ligação com o sistema límbico e hipotálamo. Sendo um sistema responsável por emoções, comportamento e aprendizagem com ligação a estruturas vitais e reguladoras do organismo (sistema nervoso autónomo e sistema endócrino), vai influenciar em muito a formação e recuperação da memória de longo prazo.
Resumindo, a memória de longo prazo (cuja duração é potencialmente ilimitada) está associada a emoções (“positivas” ou “negativas”) e mesmo estados orgânicos. A recordação ou evocação de memórias pode ser inibida ou estimulada consciente ou inconscientemente.

Quase todos nós temos recordações expressivas de certos momentos da nossa infância (memórias que recuperamos muitas vezes ao longo da vida). No entanto, podemos ser vítimas de percepções falsas (visão, audição...) que foram guardadas como informação verdadeira, ou de informação com um peso emocional tão grande que pode ter sido subvertida, quer na consolidação, quer na recuperação.
Quer isto dizer que as nossas recordações normalmente não são completamente exactas; as memórias foram armazenadas com o filtro do nosso “eu”, na altura do acontecimento. Esse filtro é também condicionado pela idade, stress ou presença de condições físicas ou psíquicas.
Para terminar, o cérebro e a memória têm também um “horror ao vazio”. Em circunstâncias em que as memórias deixam de poder ser evocadas (não há evidência de que sejam destruídas), o cérebro produz novos dados sem qualquer coerência com a informação em falta (confabulação).
A memória, uma de muitas funções cognitivas superiores, é um lugar estranho, porque acaba por se estender do cérebro a todo o organismo, estabelecendo um sistema de coerência do próprio que quando é perdido se torna o pior dos labirintos: uma realidade alternativa da qual o sujeito deixou de fazer parte.


Pequena nota cinematográfica: um exemplo bem construído sobre processos mentais e a conservação de memórias - O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), 2004