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terça-feira, 2 de abril de 2019

Terre Haute Skylight (publicado em Política Virtual,, Julho 2001)


(11.6.2001, Indiana,USA)



"Eu sou o dono do meu destino


Eu sou o comandante da minha Alma"

William Henley

1992- discurso de tomada de posse, Nelson Mandela

2001- últimas palavras de Timothy McVeigh


Diz-se que durante o seu transporte para a cela da morte, McVeigh pediu para parar e olhar a lua e as estrelas. Diz-se que o seu último desejo foi um jantar de gelado de chocolate com hortelã-pimenta.

Diz-se que o diabo branco americano morreu, que a pena se cumpriu. Se se fez justiça ou não, cabe a cada cabeça, muitas achando demasiado brando o método que o recambiou para as chamas ardentes, algumas rezando pela sua pobre alma ("temos que lhe perdoar, só assim ficaremos livres").

A caridade cristã norte-americana patrocinou um circuito fechado de TV para as vítimas e familiares de vítimas do atentado de Oklahoma que não tiveram a suprema felicidade de ser sorteados juntamente com alguns jornalistas poderem assistir em directo, embora não in loco, aos 7 minutos e meio de uma morte há muito anunciada.

Diz-se que a vida imita a arte, a arte imita a vida; esta foi a Parte 1: "Dead Man Walking" de Tim Robbins, com Susan Sarandon e Sean Penn. Ainda se ouve Bruce Springsteen ao virar da esquina, quando os médicos e os guardas prisionais regressam a casa.

Descrição: McVeigh é amarrado a uma maca, seguem-se 3 injecções: 1ª, um sedativo, que prepara o organismo para não reagir, não haver aquela luta puramente animal, desenfreada e inconsciente, reflexo de sobrevivência que cai mal na CNN; 2ª, cloreto de pancurónio, derivado do curare, paralisa toda a musculatura esquelética, incluindo o diafragma daí resultando paragem respiratória (asfixia); 3ª, cloreto de potássio, provoca interferência na condução cardíaca, desregulando-a, levando à paragem.

Em 7 minutos e meio, paragem cardio-respiratória forçada. Não há reanimador na sala da morte, embora, em circunstâncias normais, qualquer doente nestas condições tivesse que ser imediatamente reanimado (no Juramento de Hipócrates, nunca diz para matar o próximo). Em circunstâncias normais, médicos especialistas teriam que esperar 48 horas para confirmar a morte cerebral, segundo apertados critérios.



"The Green Mile", baseado numa novela de Stephen King, leva-nos aos anos 30, tempo da "old sparky" (literalmente velha faísca), cadeira eléctrica cuja voltagem fazia apagar as luzes da vizinhança quando em utilização.
Timothy McVeigh desistiu por moto próprio da panóplia de recursos a tribunais, pedindo clemência. Decidiu não passar o resto da vida a esperar; assim, soube o tempo que lhe faltava viver.

Até o pedido do Papa caiu em saco roto aos pés do júnior e oligofrénico Bush. A Democracia baluarte dos valores do mundo moderno soçobrou à justiça olho por olho, dente por dente. Mostra bem a desagregação de um país onde os alunos do secundário praticam tiro ao alvo com os colegas e professores, tentando depois um harakiri estilo Pokemon. O país onde o anquilosado Charlton Heston clama por armas para todos. O país onde "pessoas normais", como o nosso vizinho da frente, perdem a cabeça e se tornam serial killers no McDonalds da esquina (será a BSE?).

O problema de McVeigh não era ter tendências de extrema direita, mas ser inteligente, ter formação militar (sendo até condecorado), e, sobretudo, ser um verdadeiro WASP. Nenhum americano lhe perdoa o facto de, com premeditação, ter agido como terrorista em próprio solo americano, destruindo um edifício federal como um castelo de cartas.

Se não fosse americano, era devolvido à precedência, e faziam-se umas manifs de vez em quando em frente à Casa Branca. Sendo americano, abriu uma ferida que não estanca no orgulho americano, no patriotismo sem limites e na paranoica caça às bruxas que inconscientemente defende os cidadãos americanos dos seus colonizadores europeus.

No filme "XFiles-Fight the Future", acharam a ideia de McVeigh tão boa que a recriaram em Dallas. Teoria da conspiração? O FBI nem sempre foi conhecido pelas suas virtudes, antes pelo seu poder velado.

Servindo uma vez mais de advogada do diabo (nunca pretendo pôr em causa a culpabilidade de McVeigh), o nosso terrorista é o típico introvertido e pacato cidadão com uma educação militar de códigos morais rígidos (quem mata quem em "American Beauty"?), que eventualmente chega a um ponto de colisão com o sistema, de não retorno ("Um dia de raiva", excelente desempenho de Michael Douglas), em que todos os mecanismos se dirigem para um objectivo concreto e a própria ideia de vida (própria e dos outros) se relativiza e secundariza até deixar de existir como tal. Segue apenas um comando, tal como a massificação da sociedade o moldou.

As reacções emocionais assoberbadas pelo aparentemente frio e contido nemésis americano na sua entrevista ao "60 minutes" não permite julgamentos livres de preconceitos. Pessoalmente, não descobri uma mente intuitivamente criminosa, um pavão preconceituado neo-nazi como o pintaram. Perpetrou um acto terrorista contra a Mãe de todas as instituições, o estado americano, tendo morrido muitas pessoas inocentes. Não se esquivou à responsabilidade. Estava preparado para o crime e o castigo, como um soldado na frente de uma batalha.

E assim perante o Deus que é citado nas notas de dólar, e George W Bush, o tal senhor que parece que é presidente dos EUA mas não tem bem a certeza, Timothy McVeigh olhou para a câmara de televisão estrategicamente colocada no tecto, olhos fixos do efeito do sedativo…

…Aquele que já morreu vos saúda.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

This ain't us but still feels fine

Há uma palavra em inglês que resume quase tudo, cheesy. This is us é borderline cheesy, porque nos atira aos olhos todos os estereótipos da soap, mas arremata com punchlines certeiras, mesmo quando o argumento anda à deriva.
E é fácil andar à deriva com um núcleo de personagens a alargar e três irmãos improváveis que aos 38 anos (and counting) parecem tão perdidos na linha da vida.
A Mãe e o Pai são a linha condutora, os larger than life com um defeitozinho, a história de amor que ao mesmo tempo contraria e afirma o "viveram felizes para sempre".
Há demasiados observadores com uma luneta crítica (por exemplo o site NewInTown trata tão intensivamente os Pearson como um episódio do Pesadelo na Cozinha).
Aquilo que eles querem saber ( p ex a morte do Jack), parece-me uma atitude redutora para a série: há várias personagens falecidas que continuam a evoluir no seu timeline.
Ou seja, só morremos, quando todos se esqueceram de nós. É um lugar comum, tal como o do último episódio. O homem bom com que vamos casar lava a loiça. Por mais cheesy que pareça, não deixa de ser verdade.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Uma história simples



Não é história, nem cinematográfica, embora me tenha relembrado do actor com os olhos mais azuis do universo que para mim passou a ser a encarnação viva do Pai Natal (sem ser da Coca-cola).
A vida não é simples, e chamar para aqui mais um filme é apenas por consolo da época natalícia. A futurologia é uma ciência incerta, mas às vezes ficamos blindados para o choque maior.

Desde que trabalho em diálise, melhor, desde quando comecei a aprender, conheci um senhor muito simpático, na altura nos seus 70s e tais, com uma cultura de vida excepcional. Por amor foi de Lisboa para o Canadá, para obter mais depressa um visto de entrada nos EUA. Por amor, porque ía casar com uma americana que lhe tinha roubado o coração em Lisboa.
Oito anos depois já eu e ele tinhamos trocado chalaças sobre a América de Obama e Trump, e praticamente sei por onde andou nos states, do Massachussets a Washington DC. Não fez o percurso típico do emigra tuga. Tinha o liceu completo português, na América, como em todo o lado agora, faltava o 12ºano, que fez e seguiu curso de contabilidade. Acabou no departamento contabilistico do departamento federal responsável pela metereologia.
Teve uma filha (que vive na América e que vê Portugal da perspectiva do turista), enviuvou e casou novamente, desta vez com uma portuguesa emigrada com família na costa oeste.

Já depois de reformado e de ter decidido voltar a Portugal, alguns problemas crónicos levaram à diálise. Como é obvio, nada que fosse coberto por seguros de saúde nos states. Não voltaria mais á América, embora até pudesse votar para a presidência na embaixada. 
A reforma vinha dos states após revisões cambiais e com uns meses de atraso. Quando o euro valorizou muito em relação ao dolar o atraso piorou. No entanto era uma pessoa que não pensava em dinheiro quando era necessário algo importante. Guiava, ia passear com a esposa, comer fora. Com o tempo tudo se foi reduzindo, por doenças de ambos.

O Joe de Washington ficou maravilhado quando lhe falei de algumas coisas da capital e de Nova Iorque. Na verdade, só estive alguns dias em Nova Iorque. O que sei de Washington DC é livresco e aprendido na 1ª/5ª série de "24", e mais tarde com House of Cards. Emprestou-me um livro com a história de todos os presidentes que comprou na Casa Branca e deu-me o livro do Dan Brown que se pássa em DC. Falámos de furacões, do congresso, do burro e do elefante.
Só nos viamos quando eu fazia sábados, logo ficava até ao ultimo turno, ou então na passagem de turnos às 3as, mas tinhamos sempre assunto de conversa. Aliás, acho que não há ninguém que não gostasse dele. Um gentleman à antiga. E gostava do Great American Songbook, pelo que já lhe tinha dado uns cds da época.

Nos últimos anos, foi internado duas vezes na cardiologia, a ultima para colocação de pacemaker. Ele era bastante ansioso em relação ao que sentia, como as arritmias. Não chamo hipocondríaco, mas superansioso. Nessas alturas uma mãozinha ajudava mais que medicamentos, assim como assegurar que estava tudo bem. Cada internamento levou-lhe muito músculo e peso, por estar acamado. Passou a ser mais dificil andar. Ainda arranjou tempo para parti um braço, se bem me lembro.

Há 3 ou 4 semanas, a filha veio a Lisboa, foram passear e acabou com a diáfise do fémur rachada na longitudinal. Não sou ortopedista, mas não me parece lícito deixar um doente de 80 e varios anos, em diálise (mais osteoporótico) acamado 6 semanas, imobilizado com gesso até à raiz da perna. Certamente havia uma maneira com parafusos e um imobilizador externo que permitisse uma recuperação mais rápida. De qualquer maneira, isso não foi levado em conta.

Também não foi levado em conta que deveria ir para uma unidade de cuidados continuados durante a recuperação, pois iria precisar de cuidados de enfermagem diários e a esposa mal consegue tomar conta dela. Foi para casa. Também não foi tomado em conta que embora imobilizado, tinha que fazer diálise 3 vezes por semana. 
Portanto passou a ir de maca com um plano duro, queixando-se de dores cada vez que era rodado, para a cadeira da diálise, ou de volta para o plano duro (mas a realidade seria ainda pior), e como as escadas do prédio onde morava eram muito estreitas, tinha de vir no plano duro em pé,de elevador.

Isto não parece de bradar aos céus? A mim parece-me, e ninguém fez nada. Quando soube da situação, pensei "isto não via correr bem". Mas não faço residência no turno salvo excepções, não sou nefrologista, ortopedista, etc. Bom senso só não chega. Porque ninguém teve nem um bocadinho.

O Joe tinha duas pessoas a ir a casa, para fazer comer e para lhe dar banho. E ainda um enfermeiro. Passado um tempo falaram de uma ferida. Não percebi se era entre a pele e o gesso. Com a brevidade do costume (uns bons dias depois) pediram-se análises, porque alguém se tinha esquecido. Estava infectado. Foi prescrito um antibiótico manhoso, oral. A directora da clínica teve conhecimento disso, mas não mudou a prescrição.

O meu sábado chegou. O Joe estava desidratado e não conseguia falar bem. Pensou-se logo em AVC, mas neurologicamente estava tudo bem: tinha era a língua extremamente seca. Perguntei sobre tudo o que tinha em casa e estava a fazer. Não me pareceu o suficiente, embora ele tenha dito que já tinham escrito cartas para o Centro de Saúde para mudar a situação. Esteve sempre hipotenso, e por isso um bocado sonolento. À posteriori, penso se não devia tê-lo mandado para o hospital, mas na altura pensei que o mandariam para casa ainda pior, uma vez que não havia grandes queixas (só um estado geral miserável). Falei com a esposa, disse os dias em que lá estaria durante a semana se fosse necessária alguma coisa.
Na 3ºf seguinte de manhã ela telefonou: o Joe estava com tosse, febre e confuso. Disse-lhe para chamar o 112 e ir para o hospital.
Acontece que a ambulância do INEM não tinha plano duro... Não faço ideia como transportarão politraumatizados...Nem foram os sapadores de Lisboa a levá-lo, mas os voluntário do Beato. Está alguma coisa mal? Não, que ideia, é só uma emergência.

Do que sobe depois,o Joe tinha uma enorme escara sagrada, em que nem os cirurgiões se atreveram a tocar. Não esteve estável e penso que terá estado confuso ou pior, até domingo dia 3.
Várias pessoas sentem hoje a sua falta. Há maneiras de viver, mas também há maneiras de morrer. Se tivessem abatido um cavalo por ter uma perna partida tinha sido mais humano.
Não pensaram na pessoa, nos cuidados terciários que andam sempre na boca dos ministros mas que na realidade são uma lástima e em quantidade minúscula. As unidades de cuidados continuados têm de estar perto das pessoas e serem acessíveis. Mais vale serem muitas com poucas camas do que estarem permanentemente em situação de rotura,como antes estavam os hospitais com os casos sociais. O tempo de internamento diminui, porque essencialmente nos hospitais fazem-se técnicas e põem-se as pessoas a andar (às vezes com umas bactérias a mais).

Das pessoas que não mereciam 3/4 semanas de sofrimento, uma delas seria o Joe. Pena que isso lhe tenha sido negado. Ainda não me conformo com isso. Este Natal não vai ser o mesmo.